José Dari Krein afirma que o fim da escala 6x1 pode abrir caminho para uma nova organização social baseada em mais qualidade de vida, proteção social e participação democrática.
O debate sobre o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho ganhou força por expressar uma insatisfação crescente dos trabalhadores com as condições atuais de emprego e com a forma como o trabalho vem sendo organizado nas últimas décadas. A avaliação é do professor do Instituto de Economia da Unicamp, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit) e um dos coordenadores da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir), José Dari Krein, que participou da 28ª Conferência Estadual dos Bancários e Bancárias, no sábado (30/05). Ele falou sobre os desafios do mundo do trabalho e os impactos das transformações econômicas, tecnológicas e sociais.
Segundo Krein, o fim da escala 6x1 se tornou um símbolo da reação social diante da precarização das relações de trabalho, ao tratar de uma questão concreta que afeta diretamente a vida da população. Para ele, o debate vai além da carga horária e está relacionado à necessidade de repensar o papel do trabalho na sociedade. "O debate não se resume à quantidade de empregos ou ao valor dos salários. Trata-se de repensar o lugar do trabalho na sociedade e sua função social", disse.

Trabalho sem perspectivas
Ao analisar as transformações ocorridas nas últimas décadas, Krein observou que o trabalho perdeu parte de seu papel histórico como elemento de identidade, pertencimento social e cidadania. Embora o Brasil tenha registrado avanços recentes, como a redução do desemprego, o pesquisador destacou que a maioria dos trabalhadores continua enfrentando baixos salários, insegurança e dificuldade para construir projetos de vida de longo prazo.
Segundo ele, 73% dos trabalhadores contratados recebem até dois salários mínimos, enquanto os empregos com remuneração mais elevada vêm diminuindo. A consequência é uma crescente sensação de frustração, especialmente entre os jovens, que encontram cada vez mais obstáculos para alcançar objetivos como a casa própria ou uma aposentadoria segura. "Mesmo estando empregado, o trabalhador não tem mais a certeza de que conseguirá conquistar patrimônio, se aposentar com segurança ou viver com tranquilidade", ressaltou.
Jornada e qualidade de vida
Krein afirmou que a organização do tempo de trabalho está no centro do debate contemporâneo e destacou que as mudanças mais recentes ocorreram na distribuição da jornada. "A ampliação de mecanismos como banco de horas, jornadas flexíveis e trabalho aos finais de semana atende às necessidades das empresas, mas dificulta a organização da vida social dos trabalhadores", disse ele.
O pesquisador também chamou atenção para o aumento da intensidade do trabalho, impulsionado pela pressão por metas e pelo uso permanente das tecnologias digitais. Além das horas oficialmente trabalhadas, ele destacou o tempo gasto com deslocamentos, qualificação profissional e conexão constante com o ambiente laboral, fatores que reduzem o espaço destinado ao descanso, ao lazer e à convivência familiar. "A ideia de liberdade individual acaba significando maior insegurança para quem depende da venda da força de trabalho para sobreviver", destacou.
Crise social e avanço da extrema direita
Durante a palestra, Krein situou as transformações do mundo do trabalho em um contexto mais amplo, que marcado por crises políticas, econômicas, sociais, ambientais e culturais, acompanhado pelo enfraquecimento de instituições tradicionais de representação, como partidos políticos, sindicatos e organizações internacionais.
Na avaliação do pesquisador, a racionalidade neoliberal fortaleceu o individualismo e enfraqueceu os laços de solidariedade coletiva, criando um ambiente favorável ao crescimento da extrema direita em diferentes países. Ele argumentou que esse avanço está relacionado não apenas à disseminação de desinformação, mas também ao sentimento de abandono e insegurança experimentado por parcelas significativas da classe trabalhadora.
Trabalho como projeto de sociedade
Para enfrentar os desafios contemporâneos, Krein defendeu a reconstrução do papel do trabalho como eixo estruturante de um projeto nacional de desenvolvimento. Segundo ele, a geração de empregos deve estar vinculada à solução de problemas sociais, ambientais e econômicos, ampliando investimentos em áreas como cuidados, saúde, mobilidade urbana, preservação ambiental, cultura e tecnologia.
O pesquisador também ressaltou a importância de fortalecer a soberania tecnológica do País, reduzindo a dependência das grandes empresas globais de tecnologia e ampliando investimentos em pesquisa, inovação e processamento de dados. "O trabalho não deve ser tratado como um fim em si mesmo. Seu papel é garantir as condições materiais para uma vida plena", defendeu.
Papel do movimento sindical
Ao abordar os desafios do sindicalismo, Krein defendeu que as entidades ampliem sua agenda para além das reivindicações específicas de cada categoria e passem a atuar na defesa de direitos universais. Nesse contexto, apontou a campanha pelo fim da escala 6x1 como exemplo de uma pauta capaz de dialogar com amplos setores da sociedade.
Segundo ele, a mobilização em torno do tema demonstra que o movimento sindical pode construir novas formas de organização e participação social, recolocando o trabalho no centro do debate sobre democracia, cidadania e qualidade de vida. "A redução da jornada representa um avanço importante, mas precisa estar associada a políticas públicas que garantam melhores condições de vida e aproveitamento do tempo livre", concluiu.
Texto: Maricélia Pinheiro
Fotos: Leo Guterrez